DO CARALHO
Simplesmente a matéria mais engraçada que já li na vida. Um filho da puta que passou 16 anos dando trotes telefônicos no Clóvis Bornay. É trabalho da Revista M, vale muito uma visita.
DISQUE BORNAY
Clóvis Bornay foi um dos nomes mais famosos do carnaval. Museólogo e carnavalesco, Clóvis era considerado um verdadeiro gênio na arte de criar fantasias, a ponto de ser declarado hors-concours nos desfiles de que participava, já que quase sempre vencia o concurso quando subia na passarela com seus trajes exuberantes. Ele morreu em 2005, aos 89 anos, e causou comoção. Seu rosto e sua voz eram conhecidos por milhares de pessoas, mas poucos o conheceram melhor que Ed, em quem Clóvis nunca pôs os olhos. Foi apenas por telefone que os dois conversaram durante 16 anos. Os bate-papos, que rolavam a qualquer hora do dia, mesmo de madrugada, começavam com Clóvis sempre sendo amável, mas terminavam aos palavrões, com Ed sendo xingado. Por quê? Ah, sim. Faltou dizer que essas ligações eram trotes. Sim, Ed passou 16 anos mandando trotes para Clóvis Bornay.
Ed é um redator publicitário que atende também pelo nome de Edberto Dutra. É pelo apelido que ele é mais conhecido e comentado. É, comentado mesmo. Existe até uma comunidade no Orkut com o nome “Eu conheço o Ed”, na qual as pessoas debatem sobre as maluquices do sujeito. Ed diz que às vezes há um exagero sobre seus feitos. “É verdade que você rola pelo chão dos bancos, para acompanhar a fila até o caixa?”, pergunta a reportagem da M.... “Que nada!”, diz o publicitário, dando uma efêmera sensação de que ele é normal. “As pessoas inventam muito”, continua, reforçando a impressão de que ninguém realmente seria capaz de uma coisa dessas. “O que acontece é que uma vez eu achei a fila do banco muito comprida e sentei no chão. Quando a fila andou, eu estava cansado e resolvi rolar no chão para ir adiante. Mas não é algo que faço sempre”, explica Ed, provando que os boatos são verdadeiros, embora ele não se toque disso.
Para falar sobre seu longo histórico de trotes passados a Clóvis Bornay, Ed recebeu a reportagem da M... na portaria de seu prédio. A idéia era partir para um boteco, mas ele sugeriu que a conversa fosse mesmo em seu apartamento. Antes, avisou sobre o coelho com quem mora. “Ah, já te contaram que eu moro com um coelho! Devem ter falado que a casa fica meio suja, né?”, sonda, abrindo o apartamento, que tem alguns presentinhos espalhados pelo coelho no chão da sala. E não estamos falando de ovos de Páscoa. Ed pede que a reportagem espere na porta para que ele possa limpar o chão. Ele pega uma vassoura e varre apenas uma pequena área da sala, em frente ao sofá, que é onde fica subentendido que o repórter deve se sentar e ouvir como começaram os trotes para Clóvis Bornay.
“Foi em 1980, quando eu tinha uns 16 anos. Eu e uns amigos vimos uma reportagem no jornal O Dia sobre um assassinato em um edifício na Rua Prado Júnior, em Copacabana. Lá tinha uma declaração do Clóvis Bornay, que era o síndico do prédio. Aí pegamos um catálogo telefônico, procuramos pelo endereço e achamos o telefone dele. Naquele dia ligamos pra ele nos fazendo passar pelo assassino, dizendo para ele tomar cuidado, pois estava dando com a língua nos dentes”, relembra Ed, com um brilho nostálgico no olhar. “Aquela foi a primeira fase dos trotes, até 1987. Entre 1984 e 1985, eu ligava semanalmente com meus amigos. Íamos para um orelhão e fi- cávamos nos revezando nas ligações. Telefonávamos às quartas, à noite. A gente sempre ligava antes de ir para a boate e brincávamos com a voz dele e a língua presa”, conta.
Ed recorda que Clóvis começava o papo sempre atencioso, carinhoso. “A gente ligava dizendo que era fã, que achávamos que ele era um vitorioso. Elogiávamos o cabelo dele etc. Já liguei dizendo que eu tinha língua presa e precisava do conselho dele. Também liguei dizendo que era um vestibulando, pensava em fazer museologia e queria a opinião do museólogo mais fodão do país”, narra o algoz, que também costumava se passar por jornalista para introduzir o trote. “Uma vez liguei dizendo que era do Peru Molhado, conhecido jornal de Búzios. Diante do Peru Molhado ele não podia ficar de boca fechada”, brinca Ed.
Quando uma piadinha dessas no fim da conversa revelava que se tratava de um trote, Clóvis passava a vociferar e até partia para ofensas. Soltava coisas do naipe de “Vai roçar a bunda nas ostras do Leme!”, uma sugestão que Ed jamais esquecerá (e provavelmente nunca experimentará, diante da bizarrice da situação). A essa altura, o leitor deve estar se perguntando “Mas Clóvis Bornay não percebia logo de cara que era trote, diante da assiduidade das ligações?”. Ed responde: “Tenho certeza que ele já sabia que era a gente. Mas sempre dava trela. Era um peroba clássico. Nós ligávamos direto, acho que ele gostava, pois era um cara solitário. Mas ele era uma figura meiga, bacana”, lembra, deixando escapar uma palavra de carinho.
Isso porque a intenção de Ed nunca foi ficar amiguinho de Clóvis. O publicitário é conhecido pelas agitações que cria. Mas sempre fora do trabalho, como narram os colegas que já trabalharam com ele em agências. “Não queria confusão, não me convidasse”, é uma das frases de Ed lembradas por um dos colegas convidados a dar depoimentos sobre o sujeito. Vamos evitar que se identifiquem, pois talvez Ed não goste de ver algo aqui revelado. Um desses amigos faz questão de contar um dia específico: “Eu estava ao lado dele, esperando para atravessar a rua Voluntários da Pátria, em Botafogo. Havia uma pequena multidão de pedestres de cada lado. Assim que abriu o sinal, ele saiu correndo e berrando: ‘atacaaaaar!’. Depois, pelo caminho, foi recolhendo todos os panfletos distribuídos na rua. Aí parou numa esquina e começou a distribuir os papéis. Mas quando um incauto se interessava em pegar, ele puxava o panfleto de volta. E no elevador do shopping lotado, em alto e bom som, começou a falar, do nada: ‘eu poderia estar roubando, eu poderia estar roubando, mas não. Estou aqui fazendo porra nenhuma!’”, relembra.
Ed não é de perder a piada, como conta outro colega. “Uma mulher apresentou a ele uma amiga. Ela falou ‘Lembra dela, Ed? Do Hipódromo?’, disse, referindo-se ao popular bar do Baixo Gávea. Ele respondeu apenas ‘De que páreo?’”. Outro caso que mostra a rapidez e a cara de pau de Ed é narrado por mais um amigo. “Ele e um colega estavam andando na rua, voltando do almoço na Praia de Botafogo. Parou um carro ao lado deles e o motorista perguntou: ‘Amigão, Santos Dumont?’, querendo saber onde era o aeroporto. Resposta do Ed, contrito: ‘Morreu!’”. Outra memorável ocasião, lembrada por um colega: “Assim que começaram aquelas imagens nas embalagens de cigarro, advertindo sobre os problemas do fumo, vi o Ed com o maço que tinha estampada a foto de um bebê prematuro. Perguntei se olhar aquela imagem o assustava. Ele respondeu: ‘Com essa idade eu não fumava’”.
Diante de descrições como essa, dá para entender a bronca com que Ed ficou de alguns colegas quando veio a sua segunda fase de trotes. A primeira acabou quando seus amigos foram se mudando para outros lugares e deixaram de ser seus vizinhos. A nova etapa começou em 1993, quando Ed já era adulto, um profissional respeitado. Um dia, na agência em que trabalhava, ele contou para os colegas sobre esse antigo hobby. “Eles não acreditaram e na mesma hora falei o telefone do Clóvis. Eu já estava há dez anos sem ligar, mas lembrava do número, que não esqueço até hoje: 275-9962. Aí liguei e todos gostaram. Acabou que o pessoal lá adotou a prática, que se espalhou para outras agências depois”, conta Ed.
Mas a falta de maldade de alguns dos novos praticantes irritou Ed. “O pessoal da agência onde eu trabalhava acabou ficando amiguinho. As meninas ligavam pedindo conselho sobre fantasia de carnaval. Aí perdeu a razão. Minha intenção sempre foi a de fingir amizade para depois descabelar o velho”, critica Ed. Seus colegas foram além nessa história de ficar bem com Clóvis Bornay. “Quando ele foi internado no hospital, o pessoal queria ir lá visitá-lo. Eu não quis. Depois de quase 20 anos zoando o cara, eu me sentiria mal. Talvez ele até tivesse fairplay. Às vezes me falavam que essa minha história com o Clóvis era digna de ir parar no programa do Jô Soares. Mas eu acho que se eu fosse lá contar os trotes, iam acabar armando de botar o Clóvis saindo dos bastidores para confraternizar comigo. Não queria isso”, diz. Mas Ed uma vez deu uma leve confraternizada com o museólogo. “Uma vez liguei pra ele e me identifiquei, dizendo que eu sempre ligava com uns amigos. Relembrei uns trotes. Ele confirmou que sabia que era a gente que sempre telefonava”, revela.
Por falar em relembrar trotes, Ed diz que é impossível escolher sua melhor façanha. “Cara, trote é como filho. Impossível dizer qual é o favorito”. Mas pela empolgação com que narrou alguns deles, é possível chegar a dois feitos de que se orgulha. Um deles foi passado depois que Ed viu no programa Sem censura, da antiga TVE, que Clóvis havia ganho seu primeiro prêmio em um concurso no clube Fluminense. “Ele contou que depois de vencer, não queriam que ficasse com o troféu, porque ele não poderia ter participado do concurso, já que não era sócio do clube. Aí liguei para ele dizendo que era o Seu Macedo, do almoxarifado do Fluminense. Falei que tinham sentido falta do troféu no clube e que eu ia lá na casa dele buscar. O Clóvis ficou nervosíssimo e disse que não ia devolver!”, lembra.
Outro que conta com um sorriso maior nos lábios foi o que passou quando viajou para os Estados Unidos. O requinte de crueldade: foi um trote a cobrar. “Eu estava nos Estados Unidos e soube que o Clóvis tinha se casado. Era madrugada. Liguei a cobrar e ele atendeu. Aí perguntei se ele tinha recebido a baixela de prata que mandei de presente de casamento”, conta Ed, explicando por que gostava tanto da prática e por que só passava trotes, única e exclusivamente, para Clóvis. “O legal do trote era ver um cara carinhoso como ele chegando ao fim do telefonema xingando a gente. Era uma coisa inesperada. O bacana para quem ouvia era ver ele partindo da meiguice para a revolta”, teoriza.
Ao fim da entrevista, dá para perceber que Ed tem saudades de Clóvis. “Quando ele morreu, recebi uns dez telefonemas. Quando minha avó morreu, se me ligaram duas vezes foi muito. Olha, nunca tive uma namorada para quem liguei tanto quanto eu ligava para o Clóvis”, contabiliza Ed, que já pensou em um substituto em seu coração. “Sabe quem seria legal para passar trotes? O David Brazil. A voz dele e a gagueira devem render bem”. Quando a reportagem já está de saída, a caminho do elevador, surge a pergunta. “Ed, você já pensou que agora que está em outro mundo, o Clóvis Bornay pode aparecer para lhe passar também uns trotes?”. Ed fica parado por uns segundos, com o olhar sério. “Poxa, não foi bom você falar isso. Nunca havia pensado nessa possibilidade. Agora fiquei preocupado”, responde antes de voltar para seu apartamento. Mas ele tem a companhia do coelho. O bichinho de estimação também deve servir para afugentar espíritos brincalhões. É só não varrer o chão.
ANDRE DAHMER - Terça-feira, Novembro 18, 2008
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MENINO DE OURO
Rafael Sica, orgulho de todos nós.
ANDRE DAHMER - Terça-feira, Novembro 18, 2008
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Segunda-feira, Novembro 17, 2008
TANTO
Domingo na casa dos pais. Você abre um armário e encontra uma caixa. Todo o seu passado. Tantas cartas, tantas fotos. Tanta vida, tanta gente. Tanta saudade.
ANDRE DAHMER - Segunda-feira, Novembro 17, 2008
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Sexta-feira, Novembro 14, 2008
SEXTA-FEIRA, DIA DE EMIR SAAD NO G1
Clique aqui, bobinho....
ANDRE DAHMER - Sexta-feira, Novembro 14, 2008
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Quinta-feira, Novembro 13, 2008
FEBRE BLOGUEIRA
Rogelio Reyes Cannady está no corredor da morte. Ele será executado no dia 19 de novembro e ...tem um blog sobre o assunto!
PS: Dica do querido Pedro Obliziner.
ANDRE DAHMER - Quinta-feira, Novembro 13, 2008
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MÃE
Maria Teresa Vieira (1932-1998), minha mãe nas artes. Estudei com ela dos oito aos dezesseis anos. Em seu ateliê em Botafogo, domestiquei minha fúria juvenil e encontrei na pintura o descanso e a compreensão. O tabaco a levou em 1998. Suas cinzas foram espalhadas pelo Largo da Carioca, no Rio de Janeiro. Pintou até o momento de seu falecimento, aos 65 anos, em 18 de Março de 1998, no Rio de Janeiro. Deixou três filhos: Moema, Arnaldo Branquinho e Paulinho. Todos eles também me educaram, ainda adolescentes, quando eu era uma criança. Deixou um acervo de mais de 8.000 obras, entre pinturas, gravuras e esculturas. Trabalhou com técnicas mistas (betume, vieux-chene e nanquim), e também fez um sem número de acrílicas sobre tela.
Em sua escola, Maria Teresa rompeu com o academicismo dos métodos tradicionais de ensino artístico, desenvolvendo métodos com o objetivo de propiciar a capacidade criadora, ministrando aulas em grupo com tratamento individualizado, sem interferência na criação do aluno e com total respeito ao seu processo particular, incentivando a pesquisa interior. Ela povoa meus sonhos, minhas memórias e meus valores até hoje, rotineiramente.
ANDRE DAHMER - Quinta-feira, Novembro 13, 2008
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Quarta-feira, Novembro 12, 2008
PORQUE ESTE É O ÚNICO MUNDO QUE TEMOS
O âncora Keith Olbermann, da MSNBC, fez um comentário emocionante (e emocionado) sobre a aprovação da Proposta 8, que baniu o casamento entre homossexuais na Califórnia. A tradução é do Diário de Bordo. E a dica, de Arnaldo Branco:
“Alguns esclarecimentos, como prefácio: não é uma questão de gritaria ou política ou mesmo sobre a Proposta 8. Eu não tenho nenhum interesse pessoal envolvido, não sou gay e tive que me esforçar para me lembrar de um membro de minha imensa família que é homossexual. (...) E, apesar disso, essa votação para mim é horrível. Horrível. (…) Porque esta é uma questão que gira em torno do coração humano – e se isto soa cafona, que seja.
Se você votou a favor da Proposta 8 ou apóia aqueles que votaram ou o sentimento que eles expressaram, tenho algumas perguntas a fazer, porque, honestamente, não entendo. Por que isso importa para você? O que tem a ver com você? Numa época de volubilidade e de relações que duram apenas uma noite, estas pessoas queriam a mesma oportunidade de estabilidade e felicidade que é uma opção sua. Elas não querem tirar a sua oportunidade. Não querem tirar nada de você. Elas querem o que você quer: uma chance de serem um pouco menos sozinhas neste mundo.
Só que agora você está dizendo para elas: “Não!”. “Vocês não podem viver isto desta forma. Talvez possam ter algo similar – se se comportarem. Se não causarem muitos problemas.” Você se dispõe até mesmo a dar a elas os mesmos direitos legais – mesmo que, ao mesmo tempo, esteja tirando delas o direito legal que já tinham (o do casamento civil). Um mundo em volta deste conceito, ainda ancorado no amor e no matrimônio, e você está dizendo para elas: “Não, vocês não podem se casar!”. E se alguém aprovasse uma Lei dizendo que você não pode se casar?
Eu continuo a ouvir a expressão “redefinindo o casamento”. Se este país não tivesse redefinido o casamento, negros não poderiam se casar com brancos. Dezesseis Estados tinham leis que proibiam o casamento inter-racial em 1967. 1967! Os pais do novo Presidente dos Estados Unidos não poderiam ter se casado em quase um terço dos Estados do país que seu filho viria a governar. Ainda pior: se este país não houvesse “redefinido” o casamento, alguns negros não poderiam ter se casado com outros negros. (...) Casamentos não eram legalmente reconhecidos se os noivos fossem escravos. Como escravos eram uma propriedade, não podiam ser marido e mulher ou mãe e filho. Seus votos matrimoniais eram diferenciados: nada de “Até que a morte os separe”, mas sim “Até que a morte ou a distância os separe”.
O casamento entre negros não era legalmente reconhecido assim como os casamentos entre gays (...) hoje não são legalmente reconhecidos.
E incontáveis são, em nossa História, os homens e mulheres forçados pela sociedade a se casarem com alguém do sexo oposto em matrimônios armados ou de conveniência ou de puro desconhecimento; séculos de homens e mulheres que viveram suas vidas envergonhados e infelizes e que, através da mentira para os outros ou para si mesmos, arruinaram inúmeras outras vidas de esposas, maridos e filhos – apenas porque nós dissemos que um homem não pode se casar com outro homem ou que uma mulher não pode se casar com outra mulher. A santidade do matrimônio.
Quantos casamentos como estes aconteceram e como eles podem aumentar a “santidade” do matrimônio em vez de torná-lo insignificante?
E em que isso interessa a você? Ninguém está te pedindo para abraçar a expressão de amor destas pessoas. Mas será que você, como ser humano, não teria que abraçar aquele amor? O mundo já é hostil demais. Ele se coloca contra o amor, contra a esperança e contra aquelas poucas e preciosas emoções que nos fazem seguir adiante. Seu casamento só tem 50% de chance de durar, não importando como você se sente ou o tanto que você batalhará por ele. E, ainda assim, aqui estão estas pessoas tomadas pela alegria diante da possibilidade destes 50%. (...) Com tanto ódio no mundo, com tantas disputas sem sentido e pessoas atiradas umas contra as outras por motivos banais, isto é o que sua religião te manda fazer? Com sua experiência de vida neste mundo cheio de tristeza, isto é o que sua consciência te manda fazer? Com seu conhecimento de que a vida, com vigor interminável, parece desequilibrar o campo de batalha em que todos vivemos em prol da infelicidade e do ódio... é isto que seu coração te manda fazer?
Você quer santificar o casamento? Quer honrar seu Deus e o Amor universal que você acredita que Ele representa? Então dissemine a felicidade – este minúsculo e simbólico grão de felicidade. Divida-o com todos que o buscam. Cite qualquer frase dita por seu líder religioso ou por seu evangelho de escolha que te comande a ficar contra isso. E então me diga como você pode aceitar esta frase e também outra que diz apenas: “Trate os outros como gostaria de ser tratado”.
O seu país – e talvez seu Criador – pede que você assuma uma posição neste momento. Um pedido para que se posicione não numa questão política, religiosa ou mesmo de hetero ou homossexualidade, mas sim numa questão de Amor. (...) Você não tem que ajudar ou aplaudir ou lutar por ela. Apenas não a destrua. Não a apague. Porque mesmo que, num primeiro momento, isto pareça interessar apenas a duas pessoas que você não conhece, não entende e talvez não queira nem conhecer, é, na realidade, uma demonstração de seu amor por seus semelhantes. Porque este é o único mundo que temos. E as demais pessoas também contam."
ANDRE DAHMER - Quarta-feira, Novembro 12, 2008
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O REI DO PONTO
"Eu ainda desenho como se meu traço pudesse receber o apreço do teu olhar"
Do desenhista Lourenço Mutarelli, para o amigo Glauco Mattoso.
ANDRE DAHMER - Quarta-feira, Novembro 12, 2008
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É DEUS/PARECE QUE VAI SER NÓS DOIS/ATÉ O FINAL
De Dominguinhos e Marcelo Camelo, do disco SOU:
ANDRE DAHMER - Quarta-feira, Novembro 12, 2008
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Terça-feira, Novembro 11, 2008
GALOPE
Dia desses, fui visitar Gabriela Javier, a paciente editora da Desiderata. Fomos tomar vinho e falar de livros. Cheguei lá uma hora e quarenta atrasado, bafo de cerveja, sorriso amarelo no rosto. É que perdi a hora junto com Leonardo e Allan Sieber. Nós estávamos queimando dinheiro com cervejas gringas em um bar, mas conseguimos chegar até lá por mero instinto de sobrevivência. Antes um pouco, nos reunimos na frente de uma igreja em Ipanema, era o velório do destemido Fausto Wolff. Nós sempre adoramos o velho do Pasquim em vida e fomos à igreja nos despedir de um ateu. E só não entramos nela porque é pecado grave levar Allan Sieber à casa de Deus.
Assim que Gabriela abriu a porta, nos mostrou grandes taças de vinho Bordeaux e nos disse algo do tipo "olha em que lindos copos nós vamos beber hoje!". Eu e Léo imediatamente olhamos com horror para o selvagem Allan Sieber, um recordista na arte de quebrar copos (os caros e os vagabundos, ele não tem nenhuma predileção).
Tive a alegria (e o assombro) de conhecer Allan Sieber através de Arnaldo Branco. E precisei de alguns anos para entender como um bruto daquele naipe podia fazer o maravilhoso e premiado trabalho que faz em cinema, quadrinhos e animação. Porque Allan Sieber não é desses de fazer cerimônia. Já o vi fazer guerrinha de comida em casas de estranhos (muitas e muitas vezes, ele adora). Também já o vi transformar um angelical open house de uma querida amiga em um broken house dos infernos. Um dia, enchemos a cara de vinho antes de uma entrevista para um jornalão aqui do Rio. O repórter, ao ver tantas garrafas de vinho vazias, perguntou se ele estava bebendo há muito tempo. E ele, com um sorriso de orgulho estampado no rosto, disse: "desde os oito anos, amigo". Em outra ocasião, perguntado se tinha filhos, respondeu categoricamente ao repórter: "Não sei".
O maior presente que meu irmão Arnaldo Branco me deu foi a amizade de Allan Sieber e por conseqüência, a de Leonardo. Com Arnaldo, aprendi a reconhecer a doçura desse enorme troglodita. Eu, Arnaldo e Leonardo nos mantivemos firmes e corajosos durante as muitas noites de chuva de copos e latas, porque sabíamos o quão grande ser humano Allan Sieber é. Nós não abriríamos mão da companhia dele por vexame algum. Mas essa é apenas uma das lições que aprendi com Arnaldo.
Arnaldo Branco também me ensinou que os mais tímidos podem guardar os maiores e mais bonitos dos universos afetivos. Ele me ofertou lealdade e amizade, essas coisas que já não existem mais. É, reconhecidamente, uma máquina criativa muito além do seu tempo. Mas impressiona mais pela firmeza de seu caráter e, principalmente, pela sua dificuldade em cantar mulheres. Porque para Arnaldo beijar uma menina, é preciso que ela se mostre totalmente interessada, talvez sentando no colo dele (anotem isso, meninas). Mesmo assim, eu, Allan e Leonardo, temos verdadeira devoção pelo homem e pela obra. Porque Arnaldo Branco é desses que você lamenta ter nascido na mesma geração que a sua. Vocês devem saber como é humilhante a disputa pelo segundo lugar de um pódio.
Um belo dia, chegou a hora de conhecer Leonardo, o homem da gruta. Ele me pareceu, num primeiro momento, um forasteiro do mundo, um desses solitários que vivem em estranhamento com as multidões das grandes cidades. Notívago, passa as madrugadas entre centenas de livros, lendo, desenhando, definhando em seu mundo próprio. Em minhas visitas didáticas ao seu apartamento, conheci Wolinski, Luís Gê e "O Tamanho da Coisa". Mas não é nada disso que vocês estão pensando: "O Tamanho da Coisa" é o nome do primeiro livro de um jovem Laerte, apenas mais uma de suas preciosidades entre as centenas de grandes autores que habitam suas estantes. O próprio Pasquim, ele tem completo, encadernado em capa dura e verde, ano por ano. E eu pensava que era a enciclopédia Barsa na primeira vez que fui lá, vejam só. É do tipo namorador, mas sem jamais perder a ternura. Um amante das mulheres, no sentido mais bonito de uma palavra com tão feia reputação hoje em dia. Apesar disso, jamais abriu mão de viver solteiro e passar suas noites de natal em motéis, com suas denominadas "amigas". Mas com tão generosas amigas, quem precisa de namoradas?
Leonardo começou a publicar charges em jornal com a benção de Jaguar, o menos vaidoso e mais talentoso homem da geração do Pasquim. Deposito nele (no Leonardo, não no Jaguar) a esperança de que viva muitos anos ainda, para continuar fazendo o humor político contundente que oferece todos os dias aos pobres que ainda têm dinheiro para comprar um desses tablóides populares do Rio de Janeiro. Eu já lhe falei com franqueza sobre o tamanho da responsabilidade e principalmente, da dificuldade de dar alegria e consciência através do humor aos trabalhadores da classe C e D, como os homens do IBGE costumam catalogar os fodidos da nossa pátria. Ele segue sua bonita jornada rumo ao nada, sempre sem grandes pretensões: está ligado ao humor e ao desenho por sina terrível, porque me parece trabalhar por puro amor e rancor, como todo grande chargista político. Nunca foi um alpinista de carreira, sempre desenhou por conta do dom, esse duro castigo.
Esses três rapazes são o meu orgulho nessa vida de merda. E serão minha bengala numa improvável velhice. Porque nunca o dinheiro foi importante para mim e para nenhum deles (por mais que o Allan negue com todas as suas forças). Eles nem ao menos sabem usar dinheiro, guardar dinheiro, construir patrimônio. Vivem de maneira caótica e anárquica em meio à mesquinharia e gula dos capitalistas do mercado editorial brasileiro: "trabalhamos como mulas e recebemos como mulas", como diria Allan Sieber.
Em nossas religiosas visitas ao jóquei do Rio, apostamos não nos cavalos, mas sim em nossa capacidade de sermos maiores do que o fardo do acúmulo de bens pelo simples acúmulo de bens. Não se trata, porém, de meros pangarés que se esmeram em chegar em último. São cavalos selvagens, nascidos para correr nos campos abertos da liberdade, alheios ao desespero dos burros, que correm cegos atrás de seus tostões.
André Dahmer, 13 de setembro de 2008, último dia de inferno astral.
